Ingleses salvam burros da extinção em Estômbar – Algarve

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Salvar burros da ameaça de extinção e a vida de cães e gatos é a missão do “Refúgio dos Burros”, uma quinta criada em Estômbar, no Algarve, por dois ingleses que decidiram dedicar-se aos animais.

 

 

Pelo refúgio, criado em 1991 com o intuito de acolher sobretudo burros, já passaram muitas centenas de animais doentes, velhos, abandonados ou retirados de acidentes nas estradas.

A pouco e pouco, a quinta começou a encher-se de cães e gatos, que muitas vezes ali chegam depois de serem literalmente atirados pelos donos por cima da vedação, até atingir o estado actual de lotação esgotada.

Apoiada por uma bengala, Nanette Richardson caminha de forma arrastada por entre a sua “família”, dezenas de cães de vários tamanhos e feitios que ladram sem parar. Uns cegos, outros coxos, mas todos com um ar feliz.

Foi por amor aos animais que esta inglesa de 76 anos e o seu amigo Peter Lander, de 71, decidiram abrir o “Refúgio dos Burros”, que alberga hoje cerca 17 burros, 27 gatos e cerca de 100 cães.

Os primeiros inquilinos do “Refúgio dos Burros” foram os 15 cães e 27 gatos que amigos de longa data tinham na primeira casa onde viveram quando chegaram ao Algarve, há mais de vinte anos.

Quando os vizinhos começaram a queixar-se do barulho, Peter e Nanette decidiram comprar um terreno espaçoso onde pudessem viver e albergar toda a “bicharada”.

Hoje, aquela é a casa de Mick Jagger, burro que deve o seu nome aos enormes lábios, das mulas Wilma e Betty, em homenagem aos “Flinstones”, e do ainda bebé Adam, a mais recente aquisição da quinta.

Charles Bronson, o mais antigo habitante do refúgio, teve entretanto que ser abatido, pois a velhice já não lhe permitia sequer levantar a cabeça.

Muitos dos animais que chegam à quinta são recolhidos da rua ou de acidentes na estrada, mas a maior parte, principalmente cães, é ali deixada por pessoas que friamente os despejam na quinta, apesar do letreiro na porta avisar “Mais cães não”.

“Ainda nestes últimos dois meses recebemos oito cães”, diz Nora Bakker, voluntária na quinta, pois mesmo com a tabuleta à porta, “as pessoas atiram os animais por cima da vedação, por vezes com o carro ainda em andamento”.

Esta holandesa, que além da profissão de assistente de veterinária, dá uma ajuda no Refúgio, é um dos elementos chave da equipa composta ainda por uma alemã, Indra Muller, mais um casal de amigos e o veterinário que ali se desloca quando é necessário tratar dos animais.

A venda de móveis, roupas e livros de segunda mão nas duas lojas de caridade que Peter e Nanette têm em Lagoa e Carvoeiro, é a principal fonte de rendimento do “Refúgio dos Burros”, cujas despesas mensais atingem os cinco mil euros.

Mesmo com alguns donativos feitos estrangeiros ricos, toda a ajuda é pouca, sendo o tratamento médico dos animais o que exige mais custos.

Apesar de algumas mazelas físicas, todos os animais exibem um ar bem tratado e saudável, cuidados que também levam Nanette a escolher a dedo as pessoas a quem são dados os animais.

“Nunca damos animais aos ciganos, que vêm cá muitas vezes pedir burros velhos para os vender aos circos, às vezes por cinco euros”, diz.

Nanette até já lhes chegou a oferecer quilos de carne para evitar que alguns burros servissem de petisco aos felinos.

“É como se fossem meus filhos”, diz, emocionada, acrescentando que o seu trabalho tem tanto de gratificante, por saber que poupa muito sofrimento aos animais, como de frustrante, “pois poderia fazer-se sempre mais”.