Associação Protectora de Animais do Cadaval

Testes em animais…alternativas!

Posted by apacanimaiscadaval em Janeiro 3, 2009

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Os testes em animais são hoje em dia utilizados nas mais diversas áreas científicas, em investigação, testes de produtos comerciais, educação e testes militares.

Em educação, por exemplo, e só nos Estados Unidos, milhões de rãs, ratos, gatos, cães, peixes e minhocas são usados nas escolas secundárias todos os anos. Os animais vêm de todos os lados e provou-se que muitos cães e gatos provinham de anúncios no jornal, do tipo “Procuro novo dono” [http://www.peta-online.org/1099/dis.html].

É muito difícil estimar o número de animais usados em testes de produtos comerciais, já que as empresas não são obrigadas a divulgar quaisquer números. No entanto, estima-se que mais de um milhão de animais morrem em testes de produtos em todo o mundo, todos os anos. O tipo de testes realizados são variadíssimos, indo desde o estudo dos efeitos dos produtos na pele e olhos, até testes de toxicologia.

Para testar a irritabilidade de um produto sobre a pele, costumam-se usar coelhos albinos. Estes vêem o seu dorso rapado e raspado (para o tornar mais sensível). Em seguida o produto a testar é colocado na pele nua e permanece aí quatro horas. É comum a pele ficar em carne viva. Raramente são usados analgésicos.

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Para verificar o efeito de um produto nos olhos, usa-se o tristemente célebre teste de Draize. Coloca-se o produto nos olhos de coelhos albinos durante três dias (ou 21 dias, se for um teste de longa duração). No final verificam-se os efeitos. Aqui também não se usam analgésicos e os animais têm que ser fortemente imobilizados. É comum partirem o pescoço ou a coluna a tentarem fugir .

[http://www.animalliberation.org.au/skineye.html].alt2

Para testes de toxicologia, o mais comum é usar-se o teste LD50, ou Lethal Test 50%, em que se determina a quantidade de produto ingerida necessária para matar metade dos animais no teste. É comum os animais sofrerem convulsões, paralisia, ferimentos internos, diarreia, vómitos e dificuldades respiratórias [http://www.animalliberation.org.au/toxtest.html]. Este teste foi apelidado por Gerhard Zbinden, um dos mais famosos toxicologistas a nível mundial, como um “ritual de execução em massa”.

Estes testes, obviamente dolorosos e traumáticos, são totalmente legais (repare-se que, fora dos laboratórios, infligir este tipo de sofrimento em animais é punido com multas ou mesmo prisão) e muitas vezes exigidos pela própria lei. Esta prevê no entanto que qualquer teste tem que respeitar a Declaração Universal dos Direitos do Animal, proclamada na UNESCO em 1978 [http://www.terravista.pt/fernoronha/1633/animais/Direitos.htm]. São contudo inúmeras as situações em que esta não é respeitada. Veja-se, por exemplo, o caso de crash tests realizados com babuínos, na Universidade da Pennsylvania, em que, no tribunal (a Universidade foi processada) foram apresentados vídeos que mostravam investigadores a amarrarem um babuíno ferido à mesa de operações e a irem almoçar, e a fotografia de um jovem macaco com a palavra crap (em bom português, monte de merda) tatuada na cabeça.

É óbvio que foram feitas muitas descobertas à custa de animais. Não se pode querer a abolição incondicional deste tipo de testes e, simultaneamente, maior segurança nos produtos que são lançados. Ninguém pode também questionar que uma vida humana vale mais que uma vida animal. O que é preciso é encontrar alternativas válidas às experiências em animais, já que estas deixam bastante a desejar. Isto devido às enormes diferenças anatómicas, fisiológicas e metabólicas entre os animais testados e o homem, que tornam a extrapolação para os humanos pouco fiável. Uma investigação publicada no Journal of the American Medical Association, em 1998, estima que a medicamentação administrada em hospitais pode ser responsável por 106 mil mortes, o que a tornaria na quarta principal causa de morte nos Estados Unidos… De facto, mais de metade da medicamentação aprovada pelo FDA (Food and Drug Administration) entre 1976 e 1985 (aprovada com base em testes em animais) teve que ser retirada do mercado ou mudar de nome, depois de ter causado graves efeitos secundários e centenas de mortes (o phenacitin, Eferol, Oraflex e o Suprol são dos exemplos mais graves) [http://peta-online.org]. O mais curioso é que a flagrante falta de eficácia deste tipo de testes é por demais conhecida e serve até como “desculpa” para os produtos que chumbam nos testes chegarem ao mercado. Em 1974, um fabricante de cosméticos foi levado a tribunal por uma mulher que ficou com lesões na córnea devido a um champô. O produto tinha sido aprovado, embora tivesse causado irritação em coelhos, nos testes de Draize. [http://www.animalliberation.org.au/skineye.html]

Então porque é que os testes em animais continuam a ser a forma mais banalizada de testar produtos? O Dr. Björn Ekwall, director do projecto MEIC (Multicenter Evaluation of In-Vitro Cytotoxicity, projecto levado a cabo para encontrar formas alternativas de testar produtos), acha que “a resposta óbvia parece ser que nunca ninguém se tinha lembrado de algo melhor, mas provavelmente é mais realista afirmar que, até há bem pouco tempo, nunca ninguém se tinha preocupado com o assunto”. Também é preciso não esquecer que a experimentação em animais é uma indústria de milhões. Os animais utilizados, manipulados geneticamente, estão longe de serem baratos. Um gato custa cerca de 75 contos, enquanto que os cães se vendem por 90 contos. [www.animalaid.org.uk/campaign/vivi/betrayed.htm]

Que alternativas existem então? Inúmeras:

Actualização da legislação. Actualmente, muitos dos testes em animais necessários para aprovação de um produto têm que ser realizados em todos os países em que este irá ser comercializado. Uma uniformização dos protocolos permitiria salvar centenas de animais. São também por vezes requeridos testes completamente irracionais. Em certos países até um simples batom tem que ser submetido a um teste LD50. Ficamos então a saber que, se comermos 1,75 kg (cerca de 90 embalagens!) desse cosmético, corremos sério risco de vida…

Técnicas in-vitro. Consiste na utilização de culturas de células, partes de tecidos e órgãos, ou mesmo órgãos inteiros, para realizar os testes. Podem também ser feitos com células humanas, atingindo um grau de confiança impossível com os testes tradicionais. Para testar a irritabilidade de um produto na pele, por exemplo, é usada pele humana produzida em laboratório. Os efeitos do produto podem ser medidos com precisão pela quantidade de enzimas expelida. Este tipo de testes pode também ser implantado com sucesso em toxicologia, já que a maior parte dos efeitos tóxicos provocados por agentes externos ao organismo registam-se ao nível celular.

Em 1996 foram divulgados os resultados do projecto MEIC, em que 59 laboratórios de todo o mundo testaram 50 produtos, usando 60 métodos in-vitro. Os 18 melhores métodos concordaram em 71% com os efeitos já conhecidos em humanos (dados provenientes de suicídios e acidentes). Estes resultados foram significativamente melhores que os conseguidos com testes em animais. Prevê-se que em 2003 esta concordância atinja os 90%.

Testes com organismos inferiores. Usando culturas de bactérias, bolores, fungos, insectos e moluscos é também possível prever os resultados de certos produtos nos humanos. A hidra, por exemplo, é um pequeno animal que, ao ser cortado em pedaços, cria novas hidras. O efeito do produto a estudar nesta reprodução pode ajudar a prever se este irá criar deficiências de crescimento em fetos humanos.

Simulações computacionais. Actualmente temos à nossa disposição uma grande capacidade computacional que pode ser usada para simular com rigor processos fisiológicos e metabólicos nos humanos. Um exemplo é o uso de computadores para prever os efeitos cancerígenos de produtos, já que se conhecem actualmente várias das estruturas moleculares que provocam o cancro nos humanos. À medida que essa base de dados vai aumentando, mais confiança podemos ter nos resultados da simulação.

O uso de vídeos e programas interactivos na educação é também um método amplamente utilizado em países como a Grã-Bretanha, Suécia, Argentina, Holanda e Noruega, que proíbem a vivissecção com fins educativos. Por cá ainda se acha que dissecar uma rã malcheirosa é altamente educativo.

O homem. De todos, este é sem dúvida o melhor método. É evidente que não podemos fazer testes de Daizer e LD50 em humanos (se calhar até se arranjavam voluntários, a julgar pelo exemplo de um laboratório na Grã-Bretanha, que realizou testes a insecticidas com humanos, aos quais pagava cerca de 150 contos… [http://www.apdconsumo.pt/cobaias_humanas.html]), mas existem alguns produtos que podem ser testados em humanos. A BodyShop [www.bodyshop.com], por exemplo, testa os seus cosméticos em voluntários humanos, que usam pensos com o produto a testar durante 4 horas, altura em que os efeitos são estudados.

Métodos não-invasivos, como a EEG (electroencefalografia), a MEG (magnetoencefalografia) e a PET (tomografia de emissão de positrões), podem ser usados para estudar os efeitos de enfartes, doenças de Alzheimer e Parkinson, sem efeitos secundários.

Estudos e inquéritos, assim como resultados de acidentes e suicídios, podem fornecer informação preciosa sobre os efeitos de produtos nocivos. Em 1985, levantou-se uma onda de protesto em torno de um grupo de cientistas que usou dados de experiências nazis sobre hipotermia, feitas com judeus (colocados em tanques de água gelada durante horas) [OMNI, 1985]. É verdade que os resultados foram obtidos de uma forma não ética e completamente desumana. Mas não seria ainda menos ético ignorar os resultados e repeti-los em animais?

E o que é que nós, “população civil anónima”, podemos fazer? Muito. As empresas aprenderam já há muito tempo que não devem ir contra a opinião pública, sob pena de verem os seus produtos boicotados. A Procter & Gamble, fabricante de Old Spice, Tide e Pringles, entre muitos outros produtos, tradicional defensora da experimentação animal, anunciou recentemente (Junho deste ano) a cessação de alguns dos testes animais não exigidos por lei, depois de ter sido enormemente pressionada pela PETA (People for the Ethical Treatment of Animals). Um dos métodos de “persuasão” mais curiosos usados por esta organização foi a participação nas corridas de NASCAR de um carro com o logotipo DIED, num claro protesto ao patrocinador do piloto Ricky Rudd [http://www.pginfo.net/died.html].

Noutro protesto da PETA, Al Gore (que foi durante meses perseguido por um homem disfarçado de coelho…) e a administração Clinton concordaram em alterar o programa HPV (High Production Volume, destinado a testar 2800 químicos industriais), de maneira a salvar 800 000 animais [http://www.peta-online.org/pn/1099hpvvict.html].

Faz alguma coisa também, participando nas acções de organizações protectoras dos direitos dos animais (ver caixa Na Net), participando num referendo (http://peta-online.org/j/ref21.html), ou contribuindo com umas massas (http://peta-online.org/js/indexs.html).

http://www.ajc.pt/cienciaj/n12/alternativa.php3

3 Respostas to “Testes em animais…alternativas!”

  1. Thabata said

    Boa Noite, muito intensa essa matéria acima esposta.
    Mais gostaria que os links relacionados fossem postos em português, pois nao tenho habilidade nessa lingua.
    Grata.

  2. Denise said

    quanto à passagem: ‘Não se pode querer a abolição incondicional deste tipo de testes e, simultaneamente, maior segurança nos produtos que são lançados. Ninguém pode também questionar que uma vida humana vale mais que uma vida animal.”, acredito que o autor deveria ser mais cuidadosa ao exprimir idéias como essa. Da formacomo foi colocado parece uma verdade absoluta, quando naverdade é uma verdade pessoal e visão parcial. Conheço muitas pessoas que, como eu, não compartem dessa visão. Eu acredito, por exemplo, que afirmar tal é especismo, uma forma de preconceito cujo discurso não difere dos discursos contra judeus, negros, mulheres e crianças para justificar atrocidades. Acredito ainda que a origem e o motivo peloqual esses testes e a crueldade e a legalidade dos mesmos permanecem e pouca reflexão é feita sobre o assunto, justamente por causa desse especismo, dessa visão de inferioridade do animal. Debates filosóficos e polêmicas à parte, o que ninguém pode realmente discutir é a dor física e os fatos observados inegáveis e dor física e perturbações psicológicas decorrentes de cativeiro são universais, independentemente da espécie humana ou não. Por isso, seria mais respeitoso e sensível declarar “acreditamos que a vida de um animal não seja tão importante quanto a de um ser humano e não somos a favor da abolição completa” ao i´nvés de tão categoricamente afirmar que isso não é discutível. Agradeço a atenção dispensada de todos aqueles que me leram e ponderaram sobre isso.

  3. Erica Silva Vieira Mendes said

    Adorei a matéria! Espero acharem uma solução para acabarem com testes em animais p produtos q só o ser humano utiliza, adorei saber que há como procurar métodos mais sensatos.

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